Missão: ressuscitar o orgulho auri-negro

Entrevistado: Afonso Miranda, presidente do Beira-Mar

Portugal Sport: O Beira-Mar vai completar 100 anos de existência. O que é para o Afonso ser o presidente do centenário e o que podemos esperar em termos de comemorações da data?

PS: É uma responsabilidade muito grande e não a vamos ignorar. Colocamos muito foco nas comemorações do centenário, para voltar a dar visibilidade ao clube. O Beira-Mar é uma marca grande, em termos de visibilidade, mas temos de voltar a ser queridos em termos regionais, primeiro na concelhia e depois na periferia. O centenário é um bom momento para criarmos algumas iniciativas, além da atividade desportiva.

Sempre que há jogo temos uma bandeira gigante a percorrer a cidade, vamos lançar o livro do centenário, vamos ter o filme do centenário que estreia no teatro aveirense e que foi gravado durante este ano. Em dezembro teremos a gala dos 100 anos do clube, vamos atribuir as condecorações de sócios de 25 anos e 50 de anos de ligação ao Beira-Mar, que não acontecia há vários anos.

Pessoalmente é um grande orgulho. Sou do Beira-Mar e vou ser sempre. Adoro esta responsabilidade e este desafio de ser presidente numa data tão simbólica.

PS: De regresso aos nacionais, qual é a sua opinião em relação a esta realidade competitiva onde o Beira-Mar está atualmente, o Campeonato de Portugal, e em relação à recém criada Liga 3, que entra agora no seu segundo ano?

Afonso Miranda: Segundo a Liga e a Federação Portuguesa de Futebol estamos numa fase de transição, as equipas que competem no Campeonato de Portugal e Liga 3 estão integradas num formado desportivo que será diferente daqui a dois ou três anos. Há questões nos formatos atuais que são injustos do ponto de vista competitivo, o Beira-Mar inclusivamente já desceu num ano em que tinha os mesmos pontos que o SC Espinho, mas temos de ter paciência e ver o que a FPF vai fazer. O clubes também não contestaram as decisões federativas e por isso o Beira-Mar vai a jogo com as condições que existem atualmente e vamos sem medo, com respeito por todos e com ambição.

Não queremos voltar à realidade do distrital, sabemos que o Campeonato de Portugal é muito competitivo e este ano há quase um 50/50. Praticamente metade das equipas em prova vão descer de divisão e as equipas que vão à fase de subida, das quatro séries, tem também uma chance de 50/50 para subir de divisão, porque das oito equipas que vão à fase de subida há duas que sobem automaticamente. Vai ser um ano rigoroso em todas as jornadas e nos momento difíceis não vamos poder colocar tudo em causa rapidamente.

PS: Pela história do Beira-Mar, os adeptos do clube vão exigir a subida já este ano?

AM: A comunicação que queremos passar aos adeptos este ano é que o Beira-Mar está no Campeonato de Portugal para não descer. Esse é o principal objetivo desta temporada. Se conseguirmos a manutenção, eventualmente podemos sonhar com algo mais. O Beira-Mar vai crescer de forma sustentada e degrau a degrau. Não podemos ter falta de ambição mas temos de ter a noção da realidade.

Para a nossa direção o futuro do Beira-Mar a longo prazo não passa pelo Campeonato de Portugal. Se assim fosse não estávamos a ser bons para o clube. Mas não vamos criar pressões desnecessárias nesta fase e vamos crescer de forma responsável.

PS: Ao contrário de outras equipas, o Beira-Mar não fez uma grande reestruturação no plantel após subir de divisão. O ano passado, quando montaram o plantel, já estavam a pensar na realidade competitiva do CP?

AM: Sim. Quando começamos o campeonato distrital o ano passado, uma das coisas que pensamos foi na estabilidade do grupo. Conseguimos o ano passado construir um plantel competitivo, com bons jogadores e com uma capacidade de horários que permitisse que todos treinassem à mesma hora. Importa salientar que vivemos uma realidade semi-profissional.

Além de mantermos a maioria dos jogadores, cerca de 15, mantivemos a equipa técnica, mantivemos a estrutura diretiva do futebol. Acrescentamos apenas o Carlos Miguel no futebol, que vai fazer a ligação entre o Pedro Moreira, diretor desportivo da equipa sénior, com o Fabeta, coordenador técnico da formação. Os jogadores que contratamos vieram porque sentimos que todos eles trouxeram valor acrescentado a esta equipa.

Esta direção preserva a estabilidade e acreditamos muito na nossa equipa técnica. Nos mausco momentos escusam de pedir a cabeça do treinador ou algum tipo de mudança radical, porque não vamos tomar decisões de cabeça quente e vamos proteger quem defende as cores do Beira-Mar.

PS: Que papel a nova academia vai desempenhar na vida do clube?

AM: A academia veio trazer identidade, porque treinamos todos naquele espaço. Equipas técnicas, treinadores e jogadores, todos se conhecem no clube. Trouxe também uma contenção de custos, porque não temos de andar a lugar campos por ai fora. Não andamos a gastar combustível para irmos treinar para fora, como acontecia anteriormente.

Conseguimos ter um bar e uma loja para ver vender os nossos produtos. Vamos ainda criar um espaço exterior, num contentor, todo decorado e com produtos de venda que estará disponível no complexo.

Depois o resto tem a haver com a realidade competitiva. O Beira-Mar nos últimos largos anos não tinha boas equipas de formação. Tínhamos apenas uma equipa no nacional, os juniores, e todas as outras nos distritais. Não é condizente com a história do clube. A falta de qualidade leva à escassez de atletas da formação no nosso plantel principal, sendo que até temos alguns, mas que foram formados há muitos anos atrás, quando o Beira-Mar ainda dava cartas na formação. As novas infraestruturas vão nos permitir captar outro tipo de jogadores e tornar o clube mais atraente. Sem academia era complicado até para os país colocar um miúdo a jogar num clube que não tinha casa própria. Os miúdos às vezes treinavam sem condições e a 50 quilómetros de Aveiro.

PS: O vosso raio de captação compreende o distrito de Aveiro?

AM – Fizemos uma reformulação a nível de scouting. Temos uma equipa a trabalhar a nossa região, que é todo o distrito de Aveiro. Já tivemos um raio mais alargado, mas era um erro, porque não conseguíamos trazer miúdos do Porto, uma vez que o norte está recheado de muitas outras academias importantes.

A formação é importante para o Beira-Mar e os resultados vão aparecer a médio prazo. Neste momento vamos nos concentrar em colocar todas as equipas nos nacionais, um feito que tornará a formação do Beira-Mar bem mais atraente.

PS: Nas modalidades tendo o Beira-Mar uma forte história eclética, como descreve o projeto que a direção tem para as modalidades?

AF: Nós acreditamos que tanto no futebol como nas modalidades, devem existir estruturas próprias. Com um principio de auto-suficiência, com uma direção técnica, que reporte à direção do clube. Nós somos sete elementos, cada um tem as suas vidas, cada um tem a sua área no clube, e cada departamento fica sob a responsabilidade a quem de direito. A auto-suficiência e estrutura própria é o nosso primeiro principio para as modalidades. Depois ainda existe a seguinte situação: se, ou quando, o futebol se profissionalizar de tal forma, penso que vai sobrar muito mais dinheiro para as modalidades, que vai permitir criar projetos bem mais ambiciosos. O dinheiro que gastamos no futebol, se investirmos 30% desse dinheiro no basquetebol, por exemplo, vamos parar à Liga. Se a profissionalização do futebol acontecer, as modalidades vão ser projetadas e nem me refiro em resultados, mas sim em condições, técnicos e jogadores.

Para o futuro, temos ainda o objetivo de ter um espaço para as modalidades no nosso complexo desportivo, de forma uniformizar o clube e tornar essa zona, na aldeia desportiva do Beira-Mar.

PS: Daqui a 15 ou 20 anos, o presidente acredita que os atletas formados nesta academia e também os próprios pais, amigos e até os adeptos do clube, vão identificar a zona onde a academia e o estádio estão localizados, como a casa do Beira-Mar, da mesma forma como acontecia no tempo do estádio Mário Duarte?

AM: Acho que sim. Mas tem de haver paciência neste período de tempo de 15 a 20 anos. Os miúdos da formação vão crescer aqui, vão se familiarizar com esta zona e a partir daí cabe ao clube trabalhar o seu marketing, para que as pessoas se melhor identifiquem com a nossa localização. Aliás, o Beira-Mar tem de um grande trabalho de comunicação a fazer, porque em anos anteriores muitas pessoas e várias gerações se sentiram maltratadas pelo clube. Há 20 anos jogadores que terminavam o último ano de juniores iam embora sem receber sequer qualquer comunicação por parte do clube. Eram ignorados. E temos um trabalho importante para fazer com essas gerações. Felizmente as pessoas hoje já começam a perceber que hoje existe uma nova geração, com um grande respeito pela história do clube, pelos adeptos e por todas as pessoas que passaram por esta casa.

rara

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