Alexandre Faria: “A nossa identidade permite que os nossos adeptos percebam porque somos um clube diferente.”

Entrevista ao presidente do Estoril Praia

Portugal Sport- Finalizando uma temporada histórica para o clube, com títulos no futebol profissional e nos sub-23, que balanço podemos fazer de um par de anos que foram verdadeiramente atípicos?

Alexandre Faria- Foi uma época muito atípica, para todos os clubes. Tivemos de nos adaptar a uma circunstância que não estávamos à espera. O Estoril Praia foi inclusivamente o primeiro clube a suspender a sua atividade em Portugal. Estávamos a ter provavelmente o melhor ano de sempre e tudo teve de ser interrompido, por todas estas questões relacionadas com a saúde e que abalam a nossa comunidade.

A retoma foi difícil e tenho receio que se tenha perdido uma época que estava e ser excecional. Felizmente mantivemos um portfólio que nos orgulha muito, com 21 modalidades, sendo o clube português com mais praticantes de futebol feminino e foi uma pena termos ficamos com tudo suspenso.

No futebol profissional foi na mesma um ano fantástico no meio de tudo isto. A subida para a Liga Bwin e o título da Liga 2 foram mais que merecidos. Conseguimos também o título da Liga Revelação, que é uma grande esperança no futuro. A colaboração de clube e SAD também tem permitido que atletas das camadas jovens ingressem no plantel profissional com maior facilidade.

As modalidades por sua vez tem tido um percurso francamente interessante. No indoor, mais concretamente no futsal não temos pavilhão próprio e o espaço onde jogávamos está transformado em covidário, o que foi uma grande condicionante para nós. Todas estas questões prejudicaram a parte desportiva. Mas estou confiante que a próxima época seja de afirmação para o Estoril Praia na primeira Liga, e também da afirmação da identidade do atleta do Estoril Praia. Sem dúvida que o regresso vai possibilitar a continuação do crescimento estrutural do Estoril Praia em termos marca.

PS – Hoje o Estoril é um clube mais apetecível dentro da formação porque subiu à liga Bwin?

AF- Sim. Mas não podemos esquecer o trabalho que fizemos enquanto clube na formação. Temos nos juniores e juvenis o resultado de um grande trabalho desenvolvido de há cinco anos a esta parte. As próprias infraestruturas do clube melhoraram. Com o clube na primeira liga torna-se ainda mais apetecível. Mas sem o trabalho da formação e infraestrutural, o plantel profissional não teria beneficiado tanto.

Para um jogador local, ter o clube na primeira liga torna-o mais apetecível, uma vez que os jogadores ambicionam todos um dia chegar ao principal patamar do futebol nacional.

PS – De que forma os sub-23 conseguem fazer a ponte entre a formação e o futebol profissional?

AF – Temos curiosamente duas equipas que alimentam o plantel de sub-23 e o plantel profissional. Que são os juniores e sub-19. Depois temos os sub-23 a fazer a transição para o profissional. Como presidente quero que estes jogadores tenham mais oportunidades na equipa principal. Mas acima de tudo queremos atletas que sintam o clube de outra forma, e que se sintam envolvidos no nosso legado histórico. Esse é um trabalho que estamos a fazer e isso nota-se cada vez mais. De futuro iremos ter mais jogadores da formação, “criados” à nossa imagem, no plantel principal do Estoril.

PS – Comparativamente com a realidade de há 10, 15 anos, hoje é possível através da formação e não só, apostar no jogador português, ao invés das múltiplas contratações de jogadores estrangeiros?

AF – O sucesso das seleções também possibilitaram nisso. É uma relação que está francamente relacionada. Com os clubes a formar mais atletas, a seleção tem mais trunfos para vencer nas suas competições. E nós ficamos com um mercado nacional mais forte.

Tudo resulta do trabalho de formação que é feito nos clubes. E hoje o Estoril Praia é um clube de referência em termos de formação de jogadores.

PS – Na realidade que se vive hoje, é possível manter estrutura base de uma equipa como a do Estoril, época após época?

AF – Hoje é mais fácil porque os clubes tem vindo melhorar as condições que oferecem. Nos investimentos que fazemos nota-se muito isso. Damos condições para que os atletas fiquem. Que são acompanhadas por uma vertente importante que é a inovação tecnológica. Mesmo os nossos jovens, hoje tem exemplos anteriores de atletas da formação que chegaram à equipa profissional. O caminho da continuidade é possível, e os jogadores podem ter a perspetiva de chegar à equipa profissional. E isso é uma fórmula de sucesso para os clubes e para as seleções nacionais.

PS – Qual é o universo de atletas do Estoril Praia?

AF – Temos mais de 2000 atletas, 650 do futebol, em masculinos e femininos. Isto apenas federados. Temos outros 500 não federados. Temos um universo de mais de 2500 atletas, com jovens que são incutidos nos nossos valores de cidadania e inclusão. Este atletas mesmo que não sejam profissionais no futuro, a esmagadora maioria não o serão, vão seguir outras carreias e nas profissões futuras irão levar consigo os valores do desporto.

PS – Foi possível segurar esse universo de atletas no período de confinamento? Mesmo em relação aos sócios, de quer forma conseguiram gerir essa massa num momento tão delicado para o desporto nacional?

AF – Tentamos sempre manter uma ligação durante todo o período de pandemia com os nossos miúdos. Fizemos várias sessões online, para os mantermos em atividade, com realizações de treinos individuais sempre que possível. Quisemos sempre que estivessem em atividade e a realizar exercícios. Claro que a distância não permite o sucesso do treino como o conhecemos, mas quisemos que se sentissem acompanhados e a viver o clube, apesar das limitações. Felizmente já conseguimos retomar as atividades e esperemos que esta situação não conheça novos reversos.

Em relação aos sócios, tivemos títulos para festejar, e foi difícil não ter os sócios connosco. Foi uma época injusta para eles. Eles tentavam manter o apoio a equipa no exterior do estádio e nos momentos das celebrações dos diversos títulos, foi duro para eles não poderem estar com a equipa conforme gostariam. Mas todos temos de ter a consciência que estes tempos exigem um grande sentido de responsabilidade e o bom senso teve de prevalecer.

PS – De que forma o clube está a trabalhar as modalidades para a próxima temporada?

AF – Trabalhamos de forma muito aproximada com a Câmara Municipal de Cascais para retomar as competições. Cascais tem várias equipas a usar os pavilhões do município. Mas a câmara tem feito um esforço com as instituições privadas para que se possa utilizar vários pavilhões e que não se percam estas competições oficiais onde vamos entrar. Mas estar no campeonato de futsal com estes condicionalismos, é complicado.

Não estamos conforme gostaríamos, mas há valores mais altos que se levantam no meio de tudo isto. Mas vamos retomar a formação, as escolinhas e a competição das equipas seniores.

PS – O feminino confirma-se como uma grande aposta no clube?

AF- Correto. Somos o clube com mais praticantes, temos todos os escalões de formação e uma academia inédita só para atletas femininas, mesmo nos escalões menores. Assim evitamos desistências de atletas com o crescimento e na chegada à puberdade. Temos uma espécie de incubadora só para as meninas mais jovens do clube.

Na liga já temos a nossa equipa, somos amadores, mas é a melhor equipa amadora da liga. Queremos ter a equipa profissionalizada, e iremos conseguir brevemente. Mas o crescimento tem de ser sustentado.

PS – De forma caracteriza a relação do clube com o concelho de Cascais?

AF – Eu penso que temos vindo a trabalhar esse aspeto de uma forma que nos obriga a alguma inteligência. A 20 minutos do Sporting e do Benfica, temos de compreender que a identidade do clube se afirma como sendo o clube da terra, local, com uma maneira de ser diferente, que privilegia a formação e os valores, do que os resultados a todo o custo.

A nossa identidade permite que os nossos adeptos percebam porque somos um clube diferente. Nas camadas jovens deixamos de anunciar os resultados dos jogos quando são desnivelados. Ao anunciarmos o resultado seria desprestigiante para o adversário e nós não queremos isso. Queremos valorizar a formação onde o resultado não é tudo. Por isso na formação todos os atletas tem o seu espaço e a sua oportunidade.

Quer atletas, quer pais de atletas, acabam por se aperceber desta diferença e percebem que este é o clube da terra, e não pretende entrar no registo de vizinhos ou clubes com outra realidade sobre aquilo que deverá ser o desporto. Não gostamos do estigma do contra tudo e contra todos.

PS- Ambições para o clube para o futuro a médio prazo do Estoril Praia.

AF- Espero que se consiga criar um projeto que garanta a manutenção do Estoril por largos anos na primeira Liga. É muito importante que isso aconteça. Até para a região onde estamos inseridos. As épocas de Marco Silva, onde fomos à Europa, foram muito importantes para projetar Cascais e o Estoril, porque recebemos equipas importantes, e não devemos menosprezar o impacto que isso teve.

Ter cá o Sevilha, o PSV, o Dínamo Moscovo, todas essas equipas adoraram estar aqui, e várias nos pediram e equacionaram a possibilidade de realizar estágios internacionais aqui. E é um passo que o concelho tem de dar. Temos as melhores condições, mas falta a componente do turismo desportivo. E é importante para o concelho conseguir receber seleções e clubes da Europa que procurem locais de estágio.

Hoje a prioridade é a manutenção prolongada e convicta do clube na primeira Liga. As pessoas não podem ver o Estoril como uma equipa que pode descer, mas sim como uma equipa constante na primeira Liga.

Na formação vamos dar continuidade ao que estávamos a fazer. Os resultados que estávamos a ter antes da pandemia não se perderam. É um trabalho que já vem detrás, continuado e esperemos que recupere a sua plenitude a partir da próxima época.

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