Santa Maria FC defende contenção orçamental para crescimento sustentado

Entrevistado: Bruno Torres

Portugal Sport: O que aprendeu sobre o Santa Maria FC onde jogou entre os 10 e os 23 anos?

Bruno Torres: Cresci aqui. Criei muitas amizades e uma relação com os atletas, com a equipa técnica, com a direção e com a freguesia porque muitas pessoas vinham ver os jogos. Depois de me formar como jogador voltei em 2008 como diretor desportivo para a equipa sénior. Também, dei apoio ao nível da formação enquanto coordenador e aqui fiquei até 2012. Gostei muito da experiência de lidar com os jogadores enquanto diretor desportivo. Reconheço que o facto de ter sido jogador me ajudou muito a perceber as necessidades dos atletas. Por vezes, o mais importante não era a questão financeira, mas sim falar, motivar e definir os objetivos.

PS: Como é que se dá a transição de diretor desportivo para a presidência do clube?

BT: Há cerca de três anos, havia um vazio diretivo no clube e bastantes dificuldades. Existia um passivo bastante elevado de cerca de 150 mil euros e muitas obras em falta como a colocação de um campo sintético que era fundamental e que já existia em muitos outros clubes. Precisava, ainda, de obras nos balneários principais e de infraestruturas importantes para que o clube continuasse a apostar na formação e a crescer. Na altura, ninguém queria pegar no Santa Maria FC e senti que tinha de dar o meu contributo. Reuni um grupo de pessoas da freguesia, amigos e empresários para me ajudarem neste percurso e assumi a liderança do clube. Achei que era importante fazê-lo para evitar que o Santa Maria caísse e tem corrido bastante bem. Sendo, também, presidente da Junta de Freguesia local não era o meu objetivo misturar as duas coisas, mas achei que era importante dar o meu contributo, dar determinados passos e definir algumas prioridades.

PS: Que prioridades foram essas?

BT: A primeira foi criar condições de trabalho para os seniores e para a formação e, nesse sentido, fizemos obras de melhoramento dos balneários principais e na parte da formação. Criamos um auditório, um secretariado para receber os pais, uma sala de reuniões para encarregados de educação e treinadores e, ainda, um departamento de logística para guardar o material dos treinos. Foi isso que fizemos no primeiro ano, mas que para que fosse possível tínhamos de aumentar a receita ou de diminuir a despesa. Diminuímos a despesa através do plantel sénior, ou seja, reduzimos em cerca de 50 por cento o custo com o plantel, que foi determinante para conseguirmos fazer as obras nos balneários. Na parte da formação fizemos um trabalho de angariação de mais patrocínios de publicidade com as empresas, explicando qual era o nosso projeto e conseguimos um aumento significativo de receitas.

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PS: De que forma é que esses cortes foram recebidos pelos jogadores e pela equipa técnica?

BT: Chamei os jogadores e conversei com eles. Alguns já conhecia do passado e expliquei que o meu objetivo era dar prioridade às condições de trabalho para que se pudessem sentir bem e que, para isso, era preciso fazer cortes, mas que os valores acordados iam ser pagos certinhos no final do mês. Todas as pessoas concordaram com a decisão. Expliquei que eram livres de arranjar outra solução, mas que nesse caso eu teria de arranjar uma equipa de jovens que quisesse abraçar um projeto diferente mesmo correndo o risco de descermos. Isto porque o principal objetivo não era obter resultados desportivos, mas de reorganizar o clube.

PS: Que balanço faz das medidas que colocou em marcha há três anos?

BT: O balanço é muito positivo. Os atletas que estavam cá na altura continuam connosco ainda com mais carinho e paixão pelo clube e são os mesmos que nunca pediram aumentos de salário. Estão muito satisfeitos com o clube e os resultados acabam por ser positivos. No primeiro ano foi um período de transição, mas atualmente temos uma equipa com os custos fruto desses cortes e, este ano, estamos em segundo lugar. É um sinal claro que a aposta foi conseguida não só em termos de redução da despesa, como na melhoria das condições de trabalho e nos resultados desportivos.

PS: Esses cortes necessários, como disse, numa primeira fase são para manter?

BT: Continuo a pensar da mesma forma e é isso que tenho transmitido ao plantel sénior. Há ainda muito trabalho para fazer no clube. Queremos criar mais um ou dois campos de futebol de 7, mais balneários para a formação que são uma necessidade porque os que temos estão completamente obsoletos e precisamos de alterar as coberturas do estádio principal, mas para isso é preciso dinheiro. De qualquer forma, vamos tentar aumentar as ajudas de custo porque os combustíveis estão mais caros. É importante que os jogadores sintam que estamos atentos aos sacrifícios que fazem e que, ao mesmo tempo, olhem para o nosso projeto a médio prazo e para o clube como parte dele.

PS: Quais são os objetivos a médio prazo do Santa Maria?

BT: Acredito que dentro de quatro a cinco anos o Santa Maria deve ter uma equipa a competir nos campeonatos nacionais, em termos de formação, e os seniores no Campeonato de Portugal, em quatro a seis anos.  Mas temos de ir devagar. Quando se constrói uma casa é preciso começar pela base e há passos a dar, primeiro pagar a dívida e depois criar condições de trabalho.

O nosso objetivo a médio prazo é termos o clube no CP e termos objetivos nessa divisão. Se estivermos bem preparados em termos daquilo que é a formação vamos ter melhores atletas. Podemos chegar a outros patamares e ter parcerias muito mais fortes até com o Gil Vicente. Tudo isto tem de ser feito de forma gradual, mas estamos a preparar-nos.

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