“Somos o clube com mais atletas federados na AF Braga”

Entrevistado: Fernando Marques, coordenador técnico da formação de futebol do FC Famalicão

Portugal Sport – A academia do FC Famalicão coincidiu com a crise pandémica que se abateu em Portugal e no mundo. Esta situação trouxe constrangimentos ao projeto da formação?

Fernando Marques – Andamos um bocadinho contra-corrente. Nós crescemos durante a pandemia, naquilo que foi o número de atletas. Paramos sempre que nos foi imposto pela DGS e trabalhamos sempre que nos foi permitido, mesmo de forma condicionada. Fruto da paragem de outras instituições nós conseguimos angariar ainda mais atletas.

Claramente que a insatisfação também foi notória e tivemos algumas desistências, fruto da ausência daquilo que foram as competições. Tivemos perdas complementadas com o ingresso de novos atletas.

PS – Apostaram em sistemas de treino alternativo, no tempo de paragem?

FM – Tivemos de nos reinventar. Nessas paragens tivemos as nossas equipas técnicas a fazer circuitos de manutenção. Que eram gravados e passados para os miúdos, para eles replicarem semanalmente em casa. Os miúdos nunca pararam, mas sabemos que a atividade estava condicionada em termos de espaços, em termos de logística familiar, etc.

PS – Qual é a vossa filosofia enquanto entidade formadora?

FM – Nós temos aqui dois grandes pilares. Nós temos do ponto de vista de um cariz mais social, como instituição de utilidade pública que somos temos como um dos grandes objetivos fazer a promoção da prática desportiva e nesse sentido queremos albergar todos os jovens que nos procuram no concelho de Famalicão. Temos conseguido albergar praticamente todos os jovens que nos procuram.

Temos um segundo grande pilar, do ponto de vista desportivo, onde queremos centrar o talento, onde queremos ter os meninos mais talentosos, com mais aptidão, para depois podermos dota-los com as ferramentas essenciais naquilo que é o trajeto da formação, com a ambição de um dia serem atletas profissionais.

PS – Para conseguirem trabalhar esses alicerces, tem nos vários escalões as chamadas equipas B e C?

FM – Em cada escalão temos de subdividir em grupos. Temos equipa A, equipa B ou até mesmo equipa C. Os miúdos são distribuídos conforme a sua etapa de desenvolvimento. Inicialmente por faixa etária, temos vários escalões diferentes, sendo que dentro de um escalão podem ser colocados numa equipa A, B ou C, conforme o nível que eles apresentem nas alturas das avaliações. Temos sempre uma avaliação inicial, uma avaliação intermédia e uma avaliação final. Na avaliação final e na inicial, da próxima época desportiva, são formulados os grupos de trabalho, sendo que durante o ano há sempre os ajustes necessários.

PS – Como entidade formadora, sentem que devem alimentar o sonho de um miúdo em ser profissional de futebol, ou tentar ajustar as expectativas dos mesmos?

FM – É legitimo permitirmos que os miúdos sonhem e devemos também alimentar o sonho deles. Naquilo que é o trajeto da pirâmide, dos petizes até aos escalões mais altos da formação, há uma maior consciencialização daquilo que poderá ser o futuro deles. Eles tem de levar daqui valores para a vida. E sabem que estão numa escola de formação que vai permitir a muitos deles, chegar a profissionais.

PS – Os juniores ainda estão albergados ao clube, ou já fazem parte da SAD?

FM – Os juniores estão associados à SAD. Nós estamos divididos da seguinte forma: até aos sub-15, inclusive, são escalões liderados pelo clube FC Famalicão, a partir dos sub-16 até à equipa A masculina, são liderados pela FC Famalicão SAD.

PS – A passagem e sub-15 para sub-16 é automática ou há algum tipo de captação?

FM – Apesar de estarmos a falar no fundo de duas instituições, não há aqui nenhuma ponte. Há uma estrada contínua, onde a passagem dos sub-15 para os sub-16 é totalmente automática e é feito com os mesmos princípios e da mesma forma que acontece por exemplo na passagem dos sub-13 para os sub-14, ou sub-17 para os sub-19.

PS – No que respeita a captações de jogadores, o vosso raio geográfico é o concelho de Famalicão?

FM – Temos uma política de angariação e temos uma política de recrutamento. Tentamos angariar todos os atletas que nos procuram, sobretudo miúdos do concelho de Famalicão. Até aos sub-12 há uma angariação forte em Vila Nova de Famalicão e nos concelhos limites. A partir dos sub-12 entra o recrutamento, onde nós alargamos o raio de ação e estamos a recrutar no distrito de Braga, Porto, Viana do Castelo e Aveiro. Esse alargamento acontece a pensar no ingresso nos campeonatos nacionais, porque os sub-15 são o primeiro patamar de campeonato nacional.

PS – Neste raio geográfico, com clubes como o SC Braga, o Vitória SC, escolas de Benfica e Sporting, é possível competir com estes no recrutamento de talentos para a formação?

FM – É um trabalho difícil, mas há lugar para todos. Desde que haja competência no trabalho feito há sempre espaço para os melhores. Nós temos crescido no trabalho que desenvolvemos, estamos numa área onde existem entidades de formação com muita competência e muitos anos de formação, nomeadamente o Vitória SC, o SC Braga, o FC Porto, os centros de treino criados pelo SL Benfica e pelo Sporting CP, Rio Ave, Boavista… mas há sempre lugar para quem trabalha bem.

Em termos de atletas crescemos, somos o clube com mais atletas federados da Associação de Futebol de Braga, na modalidade de futebol. E somos o oitavo clube a nível nacional com mais atletas federados no futebol.

PS – Pensando no que esta academia veio trazer ao FC Famalicão, podemos dizer que existe um antes e após academia?

FM – Há claramente um antes e um após época desportiva 2018/2019. Com a conclusão do espaço dedicado só à formação do FC Famalicão, houve uma mudança de paradigma naquilo que é o investimento na formação de jovens valores e jovens atletas. Concluímos a primeira fase da academia em 2018, em conjunto com esse feito tivemos a subida de divisão da nossa equipa A e isso ajudou a alavancar o que é hoje a formação deste clube.

Posteriormente concluímos a segunda fase da academia. Hoje os jovens tem excelentes condições para desenvolver as suas capacidades físicas e motoras, sendo que o aumento da quantidade e qualidade dos recursos humanos no clube, foi um ponto chave para estarmos atualmente num nível muito elevado.

PS – Os resultados desportivos já começam a aparecer?

FM – No passado tínhamos grande dificuldade em manter as nossas equipas nas competições nacionais. Curiosamente em 2018/2019 conseguimos ser campeões nacionais de juniores da segunda divisão nacional. Conseguimos consolidar as nossas equipas de sub-17 e sub-18 nos campeonatos nacionais e com bons resultados. Neste momento conseguimos disputar de forma habitual as segundas e terceiras fases da competição.

PS – Uma questão que está hoje muito em voga, é a situação da saúde mental. O FC Famalicão tem algum departamento que faculte algum tipo de apoio aos miúdos e aos pais dos miúdos?

FM – Temos. O FC Famalicão está a evoluir na constituição dos seus departamentos. Hoje em dia temos o departamento de comunicação, construido há pouco tempo. Temos a nutrição, que acompanha os jovens e dá-lhes determinadas dicas para aquilo que deve ser a sua alimentação a nível diário e a nível semanal. Temos um departamento médico multidisciplinar, desde médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, que podem apoiar a saúde física dos atletas.

E temos há três anos um departamento de psicologia. Curiosamente é o departamento onde há mais reticência. Nós comunicamos aos encarregados de educação que existe esse serviço, que se devem apoiar nele, que podem usar e abusar, mas na verdade o nosso psicólogo principal, Francisco Rodrigues, tem muito pouco trabalho com aquilo que são os pedidos externos. Ou seja, tem muito trabalho com a sua atividade interna e com as funções que aqui desempenha, mas o que é o pedido exterior por parte dos encarregados de educação, quer para os filhos, quer para eles próprios, é praticamente inexistente.

PS – Em termos académicos, acompanham os resultados escolares dos miúdos do FC Famalicão?

FM – Acompanhamos e exigimos no final de cada período que todos eles partilhem connosco as notas escolares. Fazemos um registo e temos também incentivo ao estudo através da entrega de medalhas de mérito escolar, ou uns diplomas de mérito, no primeiro período de bronze, no segundo de prata e no terceiro de ouro. Em contrapartida, quando as notas não são boas, entra o Francisco ao barulho e tenta perceber o que se passa e mudar um bocadinho a cabeça dos miúdos para perceberem a necessidade dos estudos.

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