“O futebol feminino é uma bandeira do clube”

Portugal Sport – Como é que a Sofia tem acompanhado a recente evolução do futebol feminino em Portugal?

Sofia Rios – Tem sido maravilhoso. Tem sido uma aposta da Federação e dos clubes, que perceberam o potencial que o futebol feminino tem, que neste momento já é bem cotado, coisa que não era há 15 anos atrás. Se calhar nessa altura ver uma filha a jogar futebol era visto como uma coisa anormal, e agora já não é bem assim.

O momento marcante que impulsionou todo este investimento por parte dos clubes, começou a partir da altura em que os jogos de futebol feminino começaram a ser transmitidos na televisão. A FPF fez o devido investimento no Canal 11 e as pessoas começaram a ver o futebol feminino com outros olhos. Também os mundiais começaram a despertar maior atenção por parte das pessoas. O Algarve Cup também ajudou a cultivar o bichinho aqui em Portugal.

Hoje vivemos uma situação maravilhosa, onde as meninas podem jogar futebol, na escola ou num clube, sem haver qualquer tipo de discriminação.

PS – Sente que o investimento é muito desigual entre as equipas que disputam os campeonatos femininos?

SR – O futebol feminino deu o boom nos últimos cinco anos, devido à entrada do SC Braga e do Sporting CP, que fez parte de uma estratégia da Federação. Nessa altura o campeonato fazia-se entre essas equipas, eram as únicas que investiam e as outras ficavam para trás. Gradualmente os clubes começaram a perceber que podiam fazer um investimento para estar a par das outras equipas.

Ainda assim, o futebol feminino tem um problema. Ou temos malta com visão, como é o caso do FC Famalicão, que consegue arranjar um investimento fruto de muito esforço, mesmo sendo o clube e não a SAD a investir, e sabendo que o retorno é diminuto, ou então temos projetos sem visão, que não vão durar a longo prazo. Para investir neste segmento do futebol é preciso ter gosto. Quem investe no feminino tem de perceber que não vai retirar lucros, que não vai encher estádios, e que em Portugal a cultura não é aberta ao futebol feminino, ainda. É melhor que há 10 ou 15 anos, trás as famílias, trás os amigos e alguns amantes do futebol feminino. Ainda há um longo caminho para percorrer e as pessoas tem de perceber isso.

PS – Olhando para o FC Famalicão e sendo a Sofia uma pessoa com experiência no futebol, que condições é que o clube vos deu, para serem uma equipa de topo nacional, como de facto o são neste momento?

SR – O FC Famalicão tem uma coisa diferente de praticamente todos os clubes onde eu estive. Para o clube, o futebol feminino é uma bandeira. O feminino é o projeto do clube. Neste momento o FC Famalicão tem um balneário para às miúdas espetacular, com as melhores condições possíveis imaginárias. Há um esforço para providenciar alojamento a algumas atletas, existe um campo exclusivo para o futebol feminino. Isto noutros clubes não acontece.

Na maior parte dos clubes com futebol feminino em Portugal, há uma clara preferência para o futebol masculino, as miúdas são sempre as últimas a treinar, enquanto no FC Famalicão treinamos no primeiro horário. São profissionais, treinam logo de manhã com o melhor rendimento. As nossas atletas recebem dinheiro para jogar futebol, coisa que não acontece em todo o lado.

E ainda há uma grande margem de progressão. O FC Famalicão tem futebol feminino há três anos, começou numa segunda divisão, este ano é o segundo ano como profissionais, portanto ainda há muito para progredir.

PS – A situação pandémica em Portugal já levou a alterações do vosso calendário de jogos esta temporada?

SR – Alteramos um jogo até ao momento, com o Varzim. Ambas as equipas passaram por um surto e teve de ser. Mantemos o contacto com os Team Managers dos outros clubes, para perceber como está a situação do outro lado e ainda há muito transtorno em função da pandemia. Mas tentamos sempre cumprir com o calendário de jogos. O calendário da Liga BPI é adaptado ao da seleção e há momentos da época onde estamos muito tempo sem jogar e depois temos momentos onde temos os jogos uns em cima dos outros. Isso torna difícil mexer com o calendário.

PS – Para o que resta da temporada, quais são os objetivos do FC Famalicão?

SR – Eu cheguei numa época de mudança. O projeto que existia deixou de existir e hoje trabalhamos com o objetivo de fazermos melhor dia após dia. Queríamos passar para a fase de apuramento de campeão, conseguimos e agora levamos um jogo de cada vez.

Este ano o campeonato é mais competitivo. Há mais equipas na luta pelo título, todos os clubes gostam de ganhar e internamente decidimos que o nosso objetivo é acima de tudo dar o melhor de nós e as contas fazem-se no fim. Estamos nas três competições, queremos continuar e estamos a trabalhar para isso.

PS – Com esta academia, com estas condições, a formação de jogadoras será uma importante estratégia para reforçar o FC Famalicão?

SR – Claro que sim. Sem formação os clubes não vão conseguir se alimentar. Para colher frutos no futuro é preciso ter formação, seja para criar atletas para a equipa principal ou para eventuais vendas. O futebol feminino vai ser alimentado pela formação dos clubes.

A medida de obrigação de ter escalões de formação, serve mesmo para contrariar tendências. Há uns anos quando um clube estava bem, do nada criavam uma equipa de futebol feminino. As equipas eram como cogumelos, criavam-se e equipas e deixavam-nas morrer muito facilmente. Num ano um clube criava uma equipa de futebol feminino e no ano a seguir terminava com a equipa. Faziam as coisas quase por moda, e quando já não servia ou não trazia visibilidade, acabavam com o projeto.

Hoje com a obrigação de haver escalões de formação, cria-se um compromisso e uma obrigação, com as atletas, com os pais, há muitas partes envolvidas. Um clube hoje quando aposta num projeto destes, tem de fazer uma coisa com pés e cabeça.

PS – A região minhota é propicia para o aparecimento de grandes talentos?

SR – É uma zona promissora. Os talentos começam a aparecer nas escolas, há uma menina que se destaca, um pai que assiste e a leva ao clube para experimentar e ver se joga. E a partir daí começa a haver uma dedicação por parte da atleta, aliado ao desenvolvimento de capacidades técnicas da criança.

No FC Famalicão não temos apenas atletas do concelho, temos uma menina que inclusivamente é de Valença. O clube é muito atrativo também para pessoas de longe, porque a equipa principal está bem e isso torna o FC Famalicão mais apelativo. Mas o futebol feminino ainda vive muito do passa a palavra.

PS – Quando é que a Sofia acredita que vai haver uma mudança cultural no país em relação ao futebol feminino?

SR – Nos próximos dois e três anos vamos ter mais equipas que se vão profissionalizar. O que eu acho, é que o paradigma do futebol feminino vai mudar, quando as crianças que hoje tem 12 , 13 anos, forem adultas. Um percurso que será acompanhado pelos país, pela família, pelos amigos da família, e assim se começam a mudar mentalidades.

Hoje também temos uma seleção mais competitiva, que existe porque há formação em Portugal. Vamos ao europeu e ao mundial, fruto da formação que começa agora a existir.

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