Entrevista a António Correia, vice-presidente do Farense

Somos um dos clubes que mais adeptos move em Portugal”

Portugal Sport- O Farense está em franca progressão, sendo que o passado do clube também está bem documentado. Após 19 anos, com um recomeço na distrital, competindo vários anos em divisões inferiores, o Farense conseguiu o tão sonhado regresso à Primeira Liga. Foi ingrato esse ano ter acontecido com os estádios interditos?

António Correia – O Farense é um clube histórico no futebol nacional. Temos 24 participações na primeira divisão nacional. A subida, vivida em tempo de pandemia, impossibilitou a presença dos adeptos no São Luís. E um clube como o Farense depende muito do apoio dos adeptos. Tal como o Leixões, o nosso clube vive da força dos torcedores, eles representam a identidade desta casa.

Disputar a Primeira Liga sem eles foi muito duro, além de um conjunto de outras situações, que prejudicaram efetivamente o Farense na época transata. Fomos maltratados pela arbitragem, tivemos jogos incríveis, tanto em casa como fora, mas acabamos muito prejudicados. E a imprensa foi unânime em considerar o Farense a equipa mais prejudicada do último campeonato.

Também não tivemos a sorte que é manifestamente importante. Os últimos jogos correram mal e acabamos por descer e voltar à Liga 2.

Esta época começou mal, com situações que fogem um pouco ao paradigma das equipas, que é o caso do relvado do São Luís e até vamos ter de fazer alguns jogos no Estádio do Algarve. Perdemos ainda alguns jogos no último minuto, por isso não temos tido sorte. Mas a época começou agora e estou convicto que vamos recuperar o tempo perdido. Temos muita esperança em conquistar almejada subida ainda esta temporada.

Temos agora um treinador da casa, que esteve ao leme da nossa equipa em anos áureos deste clube, na década de 1990, que foi adjunto do Paco Fortes, que esteve na final da Taça contra o Estrela, nas competições europeias também. Acredito que o Fanã nos vai ajudar muito neste período em que mudamos de treinador.

PS – A pandemia veio bloquear o desenvolvimento das modalidades do clube?

AC – Na formação e nas modalidades houve um abrandamento. Os pais também tem receios e não querem levar os filhos ao desporto neste momento. Mas continuamos com muitos atletas a representar o Farense na formação de futebol e nas modalidades, como no futsal, basquetebol e o boxe. Neste momento temos mais de 1000 atletas no clube.

Temos uma população que está também ligada ao clube, o termo “És Faro, és Farense” existe por algum motivo e somos também um concelho muito ligado ao desporto. Temos também uma excelente massa associativa, e uma das melhores claques do país. Dentro da realidade que é Faro, temos uma massa associativa sempre presente. A claque vai sempre ver os jogos fora, nunca faltou apoio ao Farense nesse sentido. Com os recintos desportivos interditos não tivemos apoio em campo, mas sabemos que os sócios estão connosco sempre.

Em termos percentuais, somos dos clubes no país que move mais adeptos. Semelhante ao Vitória SC, ao Vitória FC e ao próprio Boavista. E estamos a falar de cidades com maior população que Faro. Se formos a ver em termos percentuais, o Farense é bem capaz de transportar mais adeptos que esses clubes, que tal como nós, são bairristas.

PS – O sucesso desportivo recente do clube, tornou o adepto do Farense mais exigente com a equipa?

AC – Sim, sem dúvida nenhuma. Os resultados galvanizaram os adeptos. O COVID-19 refrescou um pouco as coisas. O Farense faz o seu campeonato em casa. Jogar no São Luís sem os adeptos prejudicou a força da equipa, precisamente porque o Farense é um clube que faz o seu campeonato com os jogos em casa. E sei que os adeptos exigem mais e melhor.

PS – Além dos pergaminhos do futebol, o futsal assume-se também como um projeto ambicioso no seio do clube?

AC – O futsal do Farense está a crescer há cerca de 10 anos a esta parte. Começamos com uma equipa de futsal sénior apenas. Hoje temos equipas em todos os escalões de formação. Nos seniores já tivemos a subida à primeira divisão nacional ao nosso alcance por três vezes. E falhamos na última jornada.

Neste momento estamos na segunda divisão, que está cada vez mais competitiva, mas estamos prontos para a luta. Apenas o Portimonense tem uma equipa na primeira divisão, nós estamos na segunda e o Albufeira Futsal na terceira. Neste momento este é o panorama do Algarve no futsal masculino.

No feminino estamos na primeira distrital, mas com uma bela equipa.

PS – Que razão encontra para o facto de que nos últimos 20 anos, a zona sul do país ter perdido tanta força competitiva?

AC – O Algarve é uma região com muitas limitações em termos populacionais. Em toda a região há cerca de 500 mil pessoas a residir. No concelho de Faro há 50 mil habitantes. Não é fácil conseguir o recrutamento de miúdos. A formação de jogadores aqui é muito complicada por causa disso mesmo.

Por isso é que para termos uma equipa forte, temos de ir buscar lá fora, temos de contratar. Felizmente hoje temos um presidente extraordinário na pessoa do João Rodrigues, que tem feito tudo o que é possível para que o Farense esteja recheado de bons valores e que consiga competir com as outras equipas.

Mas com a falta de população é dificílimo recrutar miúdos com qualidade, comparativamente com a realidade de Lisboa ou Porto. Mas mesmo sem a prata da casa, vamos dar tudo para elevar o Farense.

PS – Será possível fazer da formação um dos pontos fortes do clube?

AC – A formação será sempre importante. Mas quando os miúdos tem talento, os olheiros do Benfica e do Sporting aparecem e recrutam os jogadores. E todos os miúdos querem ser o Cristiano Ronaldo, querem jogar nos grandes, e nós não os podemos prender ao clube.

Acabamos por ter uma limitação nas camadas jovens, no que diz respeito a conseguir fazer a ponte de atletas da formação para o plantel profissional. Há muitas limitações em relação à nossa capacidade de recrutar crianças e segurar os maiores talentos da região.

PS – Existe a possibilidade de aumentar o número de modalidades do clube?

AC – Estamos a estudar essa possibilidade. Além do futsal, temos também o basquetebol com um projeto interessante a longo prazo. E temos o boxe. O boxe é praticamente sénior e com atletas completamente focados e dedicados à sua modalidade. Até porque para se competir no boxe é preciso realmente gostar muito do que se faz.

Todas as modalidades devem ser auto-sustentadas e o Farense tem as portas abertas em albergar mais desportos. No entanto, com a descida de divisão no futebol profissional, estamos a juntar os principais esforços para colocar a equipa de de novo lá em cima. Íamos abrir a secção do atletismo já este ano, mas com o foco do futebol deixamos a modalidade um pouco em stand by. Mas brevemente teremos novas modalidades no clube.

Também éramos para avançar com uma equipa de futebol feminino, mas com as adversidades que tivemos com a COVID-19 e com as descida de divisão, descuramos um bocadinho esse segmento. É um projeto para a próxima época.

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