Entrevista a David Custódio, coordenador técnico do basquetebol do Farense

Representar o Farense tem uma responsabilidade acrescida”

Portugal Sport – Imensas modalidades foram interrompidas com o surgimento da pandemia inerente à COVID-19. Que consequências teve o surto do novo coronavírus dentro da estrutura de basquetebol do Farense?

David Custódio – A pandemia custou-nos dois anos desportivos. A primeira época foi muito complicada. Só houve o inicio do campeonato. Em março parou tudo e estivemos quase um ano sem jogar. Investimos nos treinos online para manter os atletas da formação ativos, com aulas online a envolver dezenas e dezenas de atletas, numa altura em que ninguém podia sair de casa.

Quando treinamos novamente, foi com o distanciamento obrigatório, e os miúdos começaram a desaparecer, muitos nem queriam vir treinar. Ainda assim, com entradas e saídas, não perdemos em número de atletas. Acabamos o ano desportivo com 140 inscritos.

Por sua vez os seniores também estiveram parados muito tempo. No regresso à competição, os jogos foram muito mal calendarizados. Muitos jogos em seguida, depois novas paragens, porque havia equipas em isolamento. Terminamos em julho o campeonato, mas espero nunca mais viver algo do género. Tivemos várias lesões, devido à falta de ritmo, foi muito mau. As várias e sucessivas paragens não foram boas para a saúde dos atletas.

Em termos financeiros também foi mau, porque não tínhamos ninguém no pavilhão, ninguém para os patrocinadores terem visibilidade. E perdemos também nesse aspeto. Perdemos muitos patrocínios.

PS – Quantos escalões tem o Farense? Como conseguiram combater o sedentarismo nesta fase delicada?

DC – O Farense em basquetebol tem neste momento 12 equipas de formação. A partir dos sub-6 até aos seniores.

No que respeita ao sedentarismo, o maior problema aconteceu com os mais velhos. Os mais novos estavam presentes sempre que podiam. Os mais velhos tornara-se mais sedentários, com maior dificuldade em entrar na competição, no ritmo de treino.

Tenho alguns jogadores com qualidade para serem basquetebolistas na equipa sénior, no entanto hoje muitos privilegiam um aniversário de um amigo, ou estar na própria PlayStation a jogar online, do que o treino de basquetebol. Esse tem sido um problema nos escalões maiores da formação do clube.

PS – O facto das modalidades na formação estarem há dois anos sem competir, vai trazer dificuldades na subida dos juniores ao plantel sénior?

DC – Essa é das melhores perguntas que se pode fazer. Os miúdos de sub-18 não competem há dois anos. São miúdos que com 14 e 15 anos não jogaram. E agora estão perto de apanhar uma realidade de seniores.

Com duas épocas desportivas onde ninguém jogou, formaram-se seniores de miúdos que não competiram em sub-18 e claro que isso vai trazer inconvenientes. São dois anos de aprendizagem que não podem ser recuperados.

PS – Na presente temporada, quais são os principais desafios do Farense no basquetebol?

DC – Temos dois. Queremos que a modalidade ganhe notoriedade em Faro. Vamos criar a dinâmica do 3×3, que denominamos de “Os reis do bairro”, onde vamos aos bairros do concelho desafiar a malta para partidas de 3×3. Aberto a todas as pessoas. Serão duas etapas e toda a gente, de todos os géneros e idades, pode praticar a modalidade no 3×3 e divertir-se. Na formação queremos passar de 60 para 100 atletas. Ao conseguirmos aumentar a visibilidade do basquetebol através destas estratégias e objetivos, vamos cumprir com o desafio de fortalecer a base da pirâmide do basquetebol do clube e assegurar o futuro da modalidade.

O outro desafio é ter o plantel sénior mais forte, que esteja ao nível da história do clube e que os miúdos da formação vejam os seniores como um sonho a ser alcançado. Porque para a base da pirâmide ser forte, o topo também tem de ser. Isso é que torna o clube atrativo e a modalidade notável.

PS – A camisola do Farense também “pesa” no basquetebol?

DC – Sim. Em Faro há duas equipas de basquetebol, com projetos sólidos de seniores. Mas a camisola do Farense tem um preço acrescido. Em Faro há muitas associações desportivas, mas quer se queira ou não, o clube da cidade é o Farense. ´És de Faro, és Farense´ é um dos lemas desta casa e nós passamos essa mentalidade aos nossos miúdos. Aqui eles além de praticarem basquetebol estão a fazer parte da história do Farense, o maior clube do Algarve e isso tem uma responsabilidade acrescida.

PS – No Algarve é fácil conseguir captar jovens para a modalidade?

DC – Sim. Temos 10 equipas de basquetebol no Algarve. De Vila Real de Santo António a Ferragudo há equipas de basquetebol, ou seja, quem quiser arranja facilmente uma equipa para competir e praticar desporto. No que respeita ao basquetebol, o Algarve tem todas as condições para ser uma região competitiva, porque o desporto aqui é bastante popular.

PS – Casos como Neemias Queta são a prova que o basquetebol em Portugal começa atingir um novo patamar em termos de categoria, ou é um caso excecional?

DC – Além do Neemias, temos outro jogador que está a ser muito falado que é o Rúben Prey. Joga em Espanha e fez um campeonato da Europa sub-16 muito bom. A situação do Neemias nunca aconteceu antes e vai impulsionar o basquetebol em Portugal daqui para a frente. Se ele começar a jogar nos Kings, as pessoas vão ficar curiosas e a modalidade vai ser mais debatida nos grandes meios de comunicação social.

Mas ter mais alguém na NBA, seria quase como sair a lotaria. Há espaço para muito poucos na NBA. Em milhões de praticantes no mundo inteiro, poucos são os que lá chegam.

PS – O facto da NBA ter deixado já há quase vinte anos de ser transmitida em sinal aberto em Portugal, atrasou o desenvolvimento da modalidade?

DC – Há um problema grave na NBA logo desde o começo. O horário do jogo. É preciso gostar muito de basquetebol para estar disponível para ver um jogo às duas da manhã e ficar acordado até às cinco se for preciso. No entanto há muito mais basquetebol para se ver além da NBA. Temos Espanha que tem um campeonato fortíssimo e temos o nosso campeonato, que passa em vários canais de televisão.

Claro que a NBA é a maior liga e é um problema os jogos não darem canal aberto. Hoje ouve-se falar em basquetebol novamente e isso tem a haver com o trabalho que os clubes estão a fazer. Um dos grandes objetivos dos clubes de basquetebol nem é divulgar os resultados desportivos, mas sim divulgar a modalidade ao máximo. Ir à comunidade, aos bairros, ir buscar mais miúdos e ir por aí fora. Não podemos esperar que os miúdos vão à Internet e ganhem o gosto pelo basquetebol. Somos nós que temos de apresentar o basquetebol aos miúdos.

PS – Como prevê o crescimento da modalidade dentro do Farense, a médio e a longo prazo?

DC – Esperava que já este ano chegássemos aos 200 atletas da formação, sem contar com os seniores. Esse é o objetivo principal desta época. O segundo objetivo é ter uma equipa sénior que os miúdos olhem e pensem ´é ali que eu quero jogar´.

Se conseguirmos isso, muitos não vão querer trocar de clube, ir para uma equipa mais forte, que é o que acontece. Se tivermos uma equipa mais forte nos seniores, eles não saem. Muitos até nem vão estudar para fora para se manterem no Farense. A médio prazo queremos colocar a equipa na liga inferior à ProLiga e o sonho seria a própria ProLiga.

Queremos também voltar a ganhar a na formação. Tivemos um título regional há oito anos com os sub-16, da geração de 1997. E precisamos de ganhar mais títulos. Queremos voltar a ser o Farense que domina o regional e vai jogar os nacionais cara a cara com as outras equipas.

Nesse sentido, desejo que os farenses apareçam para apoiar a equipa de basquetebol no pavilhão, e que apoiem este projeto para a modalidade. Sejam do Farense também no basquetebol.

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