O Rugido da Costa Verde

E já são 106 os anos de glória do SC Espinho. A viver um período transitório, qualquer amante de desporto respeita a história dos “Tigres da Costa Verde”, um clube campeão, eclético e acima de tudo um clube cuja mística não se centra apenas nos atletas que vestem de preto e branco, mas sim na sua massa adepta, que vivem o “Espinhinho” com uma paixão sem precedentes. Para os adeptos vareiros não interessa a modalidade, a divisão, nem o adversário. Independentemente da adversidade, o tigre terá sempre o rugido de um predador.

O final da temporada de 2016/2017 marcou um virar de página na história do SC Espinho. Depois de vencer em casa o Oliveira do Bairro por 3-2, o emblema espinhense sagrou-se campeão distrital de Aveiro, garantindo a promoção ao Campeonato de Portugal. Olhando para a história centenária do clube, o titulo em si pode não parecer um marco importante, uma vez que o SC Espinho além de conquistas em divisões superiores, já marcou várias vezes presença na primeira divisão nacional. No entanto, o final da temporada 2016/2017 marca o reerguer de um clube que esteve quase com as portas fechadas, que tinha perdido qualquer tipo de ambição dentro do futebol, com enormes problemas financeiros, com infraestruturas ultrapassadas e sem qualquer tipo de rumo. Restava o voleibol e as modalidades, para dignificar o orgulho dos tigres.

Foram precisamente os adeptos que conseguiram alavancar o clube que hoje está em processo de desenvolvimento, com uma ambição desportiva que estava perdida há mais de uma década e meia. Bernardo Gomes de Almeida, adepto de berço do clube, com uma história de família que se cruza com a história do SC Espinho, assumiu as rédeas da coletividade em 2015, sem estruturas, sem formação, (quase) sem sócios e com a sua direção procurou devolver o clube aos adeptos, recuperando passo a passo a sua massa associativa. Com jogadores feitos na casa e de novo com pessoas no estádio Comendador Manuel Violas, o SC Espinho jogava ao domingo nos distritais e o ambiente eletrizante fazia inveja a muitos clubes da primeira divisão nacional. Restaurantes cheios, tascas a abarrotar, peregrinações ao estádio, em 2017 a cidade estava com o clube e o clube estava com a cidade. O regresso aos nacionais aconteceu e a exigência dos adeptos aumentou.

O município prometeu um estádio novo, o antigo Comendador Manuel Violas foi demolido e o SC Espinho começou a jogar, primeiro em Fiães, agora em Ovar. As condições ainda estão longe de serem saudáveis, mas à semelhança do que se passa no concelho, o SC Espinho é um clube em construção e o futuro, mais do que risonho, avizinha-se saudável.

Em 2018/2019, apenas dois anos após a subida aos nacionais, o SC Espinho esteve a um passo de chegar aos campeonatos profissionais, perdendo nos penalties contra o Casa Pia, no playoff de acesso à segunda liga. Apesar de falhado nesse ano o acesso, a direção assumiu que o objetivo do clube passa mesmo pelos profissionais. Em 2015 o objetivo era a estabilização do clube, neste momento o SC Espinho já sonha com a segunda liga. Após perder com o Casa Pia, o SC Espinho perdeu também vários jogadores com uma qualidade individual substancial, para equipas de divisões superiores e para rivais onde a sua força não provém da massa adepta, mas sim do investimento financeiro.

Face a pandemia da COVID-19, o ano passado o SC Espinho não disputou grande parte dos jogos, uma vez que as competições foram canceladas e o início desta temporada foi um verdadeiro pesadelo, excetuando na Taça de Portugal, prova essa onde o clube se mantém na disputa. Atualmente os tigres procuram garantir uma posição estável na tabela classificativa, de forma a terem uma chance de atacar os lugares cimeiros durante a segunda volta, um desafio complicado, mas não impossível, na ótica de muitos adeptos.

Olhando de novo para a massa adepta, apesar de todo o percurso diretivo dos últimos cinco anos, os associados do clube ambicionam muito mais. Para muitos, o lugar do SC Espinho é na primeira divisão nacional, um campeonato onde o clube espinhense marcou presença por onze vezes na sua história, conseguindo inclusivamente um sexto lugar. A última vez que o SC Espinho esteve na primeira divisão foi em 1996/1997, um ano inesquecível para todos os adeptos.

Nessa temporada, a primeira liga era disputada por 18 equipas. No final da primeira volta o SC Espinho já tinha obtido 27 pontos e estava em quarto lugar na tabela classificativa, com acesso à Taça UEFA. O que se avizinhava de histórico acabou em tragédia e os tigres terminariam o campeonato com apenas 33 pontos, ou seja, apenas somariam quatro pontos em toda a segunda volta, terminando o campeonato no 16º lugar, sendo despromovido para a segunda divisão. Face a esse acontecimento, existe ainda hoje entre os associados, um sentimento de injustiça e revolta, que apenas será corrigido quando o clube tiver uma nova chance de disputar a primeira divisão nacional.

SC Espinho Olímpico

Apesar do futebol ser um tema da ordem do dia, o voleibol é a par do futebol a principal modalidade do clube. São mais de 30 os títulos conquistados no voleibol, uma modalidade onde efetivamente “o rugido é de vitória”. Para sermos mais específicos, são 18 os campeonatos nacionais conquistados, 11 as Taças de Portugal vencidas, quatro supertaças, e uma Top Teams Cup, o único título europeu de voleibol conquistado por uma equipa em Portugal.

O Sporting Clube de Espinho tornou-se na maior potência desportiva portuguesa de voleibol, apesar de não ser uma modalidade da sua fundação. A secção de voleibol surgiu em 1939 e foi através do desenvolvimento do voleibol nas escolas, que a cidade de Espinho se tornou conhecida como a “capital do voleibol”. Alguns dos melhores jogadores portugueses da história da modalidade passaram pelo clube e conquistaram títulos. Em 2001, quando na mesma equipa se encontram figuras como Miguel Maia, João Brenha, Hugo Ribeiro e José Pedrosa, os tigres foram à Turquia conquistar a Top Teams Cup, vencendo por 3-2 os russos do Izumrud Ekaterinburg. Importa não esquecer que Miguel Maia e João Brenha além de campeões pelo SCE, representaram Portugal em voleibol de praia nos Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996 (4º lugar), Sidney 2000 (4ºlugar) e Atenas 2004 (9º lugar).

Neste momento o SC Espinho mantém-se igual a si mesmo no voleibol, sendo uma das equipas mais competitivas da primeira divisão nacional. Nos anos recentes, face ao super investimento do Sporting e supremacia do Benfica, o clube não conseguiu voltar a ser campeão desde 2012. Ainda assim conquistou a Taça de Portugal 2016/2017 e a Supertaça 2017/2018.

Como se constata o SC Espinho foi o clube de alguns atletas olímpicos ao longo da sua história. Maia e Brenha formaram uma dupla olímpica inolvidável, no entanto o principal atleta do clube quando referimos a palavra “Olimpíada”, tem de ser o saudoso António Leitão. António Leitão foi não só um dos maiores atletas da história do clube, como um dos maiores atletas da história de Portugal. Nascido em 1960, a lenda espinhense apenas representou dois clubes na sua carreira: O SL Benfica e o Sporting Clube de Espinho. Para se perceber a importância que Leitão teve no atletismo, relembramos que ainda o hoje o record nacional dos 3000 metros lhe pertence, uma marca atingida em Bruxelas no ano de 1983, 7m39,60s. Um ano depois conquistaria nos Jogos Olímpicos de Los Angeles a medalha de bronze nos 5000 metros, e apesar de já estar contratualizado como atleta do Benfica, António Leitão permanece até hoje como único atleta formado no SC Espinho, a conquistar uma medalha olímpica. Ao serviço do SC Espinho, venceu a medalha de bronze nos 1500 metros do Europeu de Juniores, em Bydgoszcz, em 1979.

Após terminar a carreira, António Leitão continuou a viver em Espinho, onde foi dono de uma loja de artigos desportivos. Faleceu em 2012, com apenas 51 anos, vitima de doença genética. Hoje, o atletismo mantém-se como uma das modalidades do clube, que ao fim de 106 anos continua a reger-se pelo ecletismo, agregando a par do atletismo, secções como a natação, o triatlo, o boccia, desporto adaptado, bilhar, dança e o andebol. No caso do andebol, os tigres tem cinco presenças na primeira divisão nacional e uma boa base de formação. Após encerrarem por alguns anos a secção de seniores, há dois anos regressaram e neste momento já disputam a segunda divisão nacional.

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