«Acredito que podemos formar novos atletas olímpicos»

Entrevistado: Rui Ferreira, diretor técnico do atletismo do FC Vizela

Portugal Sport – O FC Vizela tem uma grande história ligada ao atletismo, com vários atletas olímpicos ligados a esta casa. Recentemente o Rui esteve presente nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Como foi essa experiência nas olimpíadas que aconteceram no Japão?

Rui Ferreira – Foi interessante e um grande desafio. Estamos a falar de provas que são muito exigentes na sua preparação. Em Tóquio foi ainda mais exigente porque tivemos a questão do COVID-19. Todas as restrições que tivemos na preparação, na viagem e na aldeia olímpica, foram complicadas de gerir. Havia várias incertezas até relacionadas com a realização, ou não, do evento, portanto existiu alguma ansiedade e instabilidade na preparação para os Jogos.

Não sabíamos bem como tudo se iria processar, só mesmo muito perto da prova é que nos foi indicado quais os procedimentos que iríamos ter de fazer, desde a chegada, até à realização das provas. Paralelamente a isso tudo, tivemos ainda a agravante das condições climatéricas adversas, muito diferente das condições que temos em Portugal e na Europa. A temperatura era muito elevada e a percentagem de humidade também. Nessa área fizemos um trabalho com a Faculdade de Desporto da Universidade de Coimbra, onde eles tem uma câmara que permite simular a temperatura e a humidade que pretendemos. Fizemos lá os estágios e a preparação para a prova.

O evento foi algo único e permite perceber ao olhar para trás, o quanto é difícil um atleta não só se qualificar para lá estar, como depois tudo o que o atleta tem de passar até conseguir concretizar o seu sonho de participar nos Jogos Olímpicos. As pessoas exigem grandes resultados mas não sabem a tormenta que é só para estar presente num evento como aquele.

PS -A história do FC Vizela no atletismo está bem documentada. O regresso da modalidade ao clube nos últimos anos, foi para continuar o trabalho feito no passado?

RF – O projeto do FC Vizela é basicamente a continuidade do que tem sido feito ao longo de todos os anos. As pessoas que estão à frente do atletismo são sensivelmente as mesmas. O FC Vizela em atletismo nasce há uns anos atrás, talvez 30 ou 40 anos atrás, quando se criou uma equipa sénior competitiva. Dessa equipa sai um treinador, que é o meu pai, Joaquim Santos. O meu pai era atleta do FC Vizela, a dada altura precisam de um treinador e o meu pai passa a fazer esse trabalho.

A dada altura os seniores saem do clube e o meu pai fica com uma equipa de formação. Que é quando aparecem atletas como por exemplo a Marisa Barros. Eu era atleta, ligeiramente mais velho do que ela, e a Marisa Barros era minha colega de treino na altura. A Marisa teve grandes resultados, foi atleta olímpica, representou o SC Braga, mas a formação dela foi praticamente toda aqui em Vizela.

A dada altura começamos a ter atletas ainda muito jovens como a Dulce Félix. Surge-me a oportunidade de ser treinador, uma vez que o grupo já era muito extenso para haver um só treinador. O presidente da altura, José Armando Branco, convidou-me para integrar a equipa técnica e auxiliar o meu pai nos comandos da modalidade de atletismo. Nessa a altura a Dulce era júnior, estava numa fase interessante da carreira dela, ainda fica em Vizela mais três ou quatro anos, sob a minha orientação, onde é campeã nacional de sub-23, fez todo o percurso de sub-23 connosco, até decidir que estava na hora de sair, para o SC Braga. Quando a Dulce sai, começam a aparecer duas miúdas, Catarina Ribeiro e Salomé Rocha, sendo que nessa altura o meu papel como treinador já estava um bocadinho mais vincado. O meu pai entendeu que devia reforçar as minhas responsabilidades na direção técnica do atletismo, e quando elas apareceram nos iniciados já estava eu ao comando, enquanto o meu pai já era um adjunto, invertendo de certa forma os papeis até então.

Quando trabalhei com a Dulce, ela já era júnior e tive a felicidade de encontrar a Catarina e a Salomé muito novas e conduzir o desenvolvimento delas durante muitos anos. Elas foram campeãs nacionais várias vezes e chegamos a ter mais atletas desse nível, mas que por uma razão ou por outra acabaram por se afastar do desporto em idade adulta.

A Salomé e a Catarina saem as duas na mesma altura para clubes diferentes, até passado dois anos se encontrarem novamente, nessa altura a representarem o Sporting CP. Acabam mais tarde por ir ambas para o Benfica e agora estão novamente no Sporting. Como treinador fui aos Jogos do Rio de Janeiro apenas com a Salomé e em Tóquio fui com as duas.

Em termos de formação no FC Vizela, quando saem a Catarina e a Salomé, tínhamos já duas esperanças no atletismo, o João e a Diana, mas que depois curiosamente ao mesmo tempo abandonaram a modalidade. O FC Vizela entretanto atravessa uma fase complicada e quando entra o atual presidente, numa conversa séria comigo, chegamos à conclusão que o melhor para o FC Vizela e para o atletismo seria seguirem caminhos separados.

A equipa saiu toda do clube e quem tomou conta do projeto foram os Dragões de Vizela, em 2011. Durante cerca de quatro anos representamos os Dragões de Vizela, até regressarmos ao FC Vizela em 2015/2016, mantendo sempre a mesma estrutura e os mesmos treinadores: eu, o meu pai e a treinadora Isabel Silva, uma atleta do meu tempo que sempre se manteve no clube e que faz um ótimo trabalho enquanto treinadora dos mais pequenos.

PS – Os locais de treino foram sempre os mesmos neste tempo todo? Ainda treinam no campo do FC Vizela?

RF – Antes de sairmos já tínhamos decidido que o melhor local para treinarmos já não era no campo do FC Vizela. Treinávamos no Parque das Termas de Vizela e nos Dragões continuamos no mesmo sitio. Basicamente nessa fase só mesmo o nome do clube que estávamos a representar é que mudou. Hoje ainda treinamos no Parque das Termas e ultimamente até utilizamos a pista de Lousada. O clube providencia transporte e por norma estamos lá à quarta e ao sábado, com iniciados, juvenis e juniores. Os mais pequenos treinam na cidade, temos conseguimos um espaço na escola secundária, que lhes dá melhores condições para treinar.

PS – Que atividade conseguiram manter, durante os recentes períodos de confinamento? Conseguiram segurar os atletas?

RF – Curiosamente mantivemos o número de atletas e tivemos até atletas do futebol, que nos confinamentos param totalmente, a treinar atletismo connosco para manter os níveis de forma. Tínhamos a vantagem de na altura sermos considerados uma modalidade de baixo risco, muitas das restrições não passavam pelo atletismo, sendo que numa primeira fase, ficamos dois meses a fazer treino online. Na hora do treino presencial, ocorria o treino online, sempre com pessoas diferentes a administrar o treino, de forma a manter alto os fatores motivacionais. Tivemos atletas como a Catarina Ribeiro, Salomé Rocha, entre outros nomes de referência a participar nessa dinâmica.

No segundo confinamento foi diferente. Nessa paragem curiosamente aproveitamos a paragem do futebol e utilizamos as instalações do campo de treinos do estádio, menos os balneários. Havia treino, sempre com restrições. Os atletas tinham de medir a temperatura à chegada, colocar álcool gel, usar máscara no transporte e à chegada. Nesta altura, ao contrário do primeiro confinamento, não tivemos de parar. O problema era a falta de competição. Para remediar, criamos uma competição interna, ao sábado de manhã, com um conjunto de provas, cada uma com pontuação, sendo que no final o vencedor era determinado pelo somatório de todas as provas. Houve um pouco de tudo, até prémios, porque era uma forma de motivar esses atletas.

PS – Quantos atletas representam o atletismo do FC Vizela?

RF – Temos cerca de 25 atletas de formação e 10 atletas seniores.

PS – Pessoas como a Dulce Félix, Catarina Moreira, Salomé Rocha, servem de exemplo e motivação, para os miúdos que hoje estão na formação do FC Vizela?

RF – Sem dúvida que elas assumem um papel importante na mensagem que se passa aos jovens. O facto de termos atletas como a Marisa Barros, a Dulce Félix, a Catarina Moreira e a Salomé Rocha, acaba por ser um fator de motivação. Além de que as últimas duas partilham o mesmo treinador, o que acontece muitas vezes é que em Lousada acabamos por ter miúdos da formação a treinar em conjunto com a Salomé, o que faz com que os mais novos vejam que se com elas é possível, e se treinam na mesma pista, com as mesmas condições e o mesmo treinador, então é possível que eles possam dar cartas na modalidade futuramente.

PS -Será possível o clube voltar a formar atletas para estarem presentes em futuros Jogos Olímpicos?

RF – Olhando para o passado fico a acreditar que sim. Se conseguimos, tendo condições muito precárias, formar quatro atletas que se tornaram atletas olímpicas, porque é que não poderá haver uma quinta, uma sexta ou uma sétima oportunidade?

Temos hoje atletas com muito talento, naturalmente os tempos são outros, os desafios também. O que motivava um atleta há 15 anos atrás é diferente do que o motiva um atleta atualmente e até a predisposição para um processo de treino é diferente. Há uns anos era muito mais fácil motivar um atleta para o sofrimento e hoje em dia, pela educação, costumes e até pelos próprios pais, que muitas vezes são os primeiros a incentivar que o filho não sofra, torna-se complicado criar essa disciplina num miúdo. E o atletismo envolve muita disciplina, muita entrega, muito sofrimento e nem sempre o atleta está predisposto a passar por esse processo. Mas acredito que se no passado conseguimos formar quatro, não vamos deixar de acreditar que torne a acontecer.

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