Ricardo Soares, o trunfo gilista

Ricardo Soares faz história no Gil Vicente ao garantir o quinto lugar na I Liga carimbando, assim, o acesso às competições europeias em 2022/23. Um feito inédito para os gilistas conseguido depois de terem batido o Tondela, em casa, por 3-0.

Em entrevista à Portugal Sport, o homem que, em novembro de 2020, assumiu o comando técnico do clube de Barcelos fala de um sentimento de dever cumprido. “É verdade que sempre achei que podíamos fazer um campeonato interessante ficando nos nove primeiros lugares, mas quando olho para a classificação penso é justo o quinto lugar por aquilo que a equipa tem feito”, afirma.

Quando chegou ao Gil Vicente, a equipa estava em 17º lugar e era penúltima classificada na tabela classificativa. As dificuldades decorrentes da Covid-19 obrigaram a redefinir as prioridades, mas não impediram os gilistas de terminar a época em 11º lugar. “Demorou algum tempo para que as coisas acontecessem porque no ano passado, como todos sabem, o campeonato começou três meses mais tarde e houve uma densidade de jogos semanais muito grande”, recorda Soares. Para o treinador, natural de Felgueiras, o trabalho de grupo foi determinante na obtenção de resultados. “O clube deu-nos todas as condições para fazer um bom trabalho. Os jogadores, também, tinham qualidade e acabamos por fazer uma boa reta final. Depois disso, tivemos mais tempo para colocar as nossas ideias em prática e para preparar a época seguinte.”

A época 2021/2022 ficou marcada por uma profunda restruturação do plantel. A aposta em novos talentos, muitos deles sem experiência na Primeira Liga, acabou por ser colmatada não só com o talento e com a capacidade de superação das jovens promessas, mas também com apoio dos futebolistas que transitaram da época anterior. “Entraram 19 jogadores e os que ficaram do ano anterior foram, extremamente, importantes porque passaram os valores do treinador, uma forma de estar e de treinar. Estou a falar não só a nível do treino, mas também comportamental.” O timoneiro gilista garante que se limitou a indicar o caminho, entretanto, percorrido pelo Gil Vicente que, esta época, terminou com a subida ao quinto lugar, assegurando a presença na Conference League. O treinador de 47 anos atribui o mérito ao grupo e em, particular, aos jogadores. “A equipa excedeu as expectativas, o que é muito gratificante já que é para isso que luto”, afirma.

Considerado por muitos como o “treinador revelação”, o maestro do Gil Vicente lembra que “em 2016, fui o treinador revelação, do ano, para a Federação Portuguesa de Futebol quando dei o salto do Vizela para o Chaves. Desde essa altura, ganhei seguramente outras valências fruto das vivências e das reflexões diárias. Hoje, sinto-me um treinador não revelação porque as pessoas já conhecem o Ricardo Soares, mas a equipa sim, é justo dizer, porque excedeu todas as expectativas não só na classificação, mas também na beleza estética do jogo.” Defende que os resultados são importantes, mas considera que o futebol não se resume a ganhar ou perder. “Hoje, o Gil Vicente é uma equipa que todos gostam de ver jogar. É uma equipa simpática aos olhos dos outros adeptos, e isso é muito gratificante. Isto porque uma das minhas preocupações é aportar ao futebol aquilo que ele nos tem dado. Temos a responsabilidade lutar por um futebol melhor, mais bem jogado, mais intenso e mais correto”, sustenta.

Os bons resultados alcançados pelo Gil Vicente tornaram o antigo jogador num treinador cobiçado por clubes internacionais. Soares garante apesar do interesse, essa hipótese nunca foi equacionada. “Obviamente que houve interesse de muitos clubes com propostas que financeiramente poderia levar algumas pessoas a ter noites mal dormidas, mas que a mim isso não me afetou. Isso não aconteceu porque tinha as ideias bem alinhadas”, insiste. O compromisso assumido com o Gil Vicente e a possibilidade de conduzir o clube a uma competição europeia falaram mais alto. “Sentia que tínhamos todas as condições para lutar por esse objetivo e para poder fazer algo de singular”, confessa. Cumprido o objetivo de fazer história no comando técnico do Gil Vicente, Soares mantém-se discreto em relação seu futuro profissional. Lembra que tem contrato como o Gil até 2023 e que está feliz no clube barcelense. “Gosto muito deste clube, sou muito bem tratado e tenho um relacionamento incrível com todos os departamentos. Sou muito feliz no Gil Vicente, mas ninguém sabe o dia de amanhã”, adianta.

As pessoas mais próximas falam de um treinador em ascensão dotado de uma grande humildade, empatia e capacidade de liderança. Soares lembra, no entanto, que um homem não se constrói, apenas, com qualidades. “Tenho características, menos boas que fui adquirindo, ao longo da vida, que me ajudaram a ser melhor treinador.  Se não fui o jogador que poderia, eventualmente, ter sido é porque tinha alguns defeitos que me impediram de avançar, fruto da juventude ou das vivências.  Mas essas mesmas vivências acabaram por me tornar uma pessoa melhor e um melhor treinador”, refere.

Soares que não nega ser a soma de um todo, mas admite que gostava de ser lembrado como uma pessoa séria porque, adianta, “estamos aqui de passagem e penso que é uma obrigação humana deixar o mundo melhor. Não quero subir na vida, nem nunca o fiz, a pisar ninguém.”

Aos 47 anos, o treinador acredita que continua a apostar na sua formação não só para ser um melhor treinador, mas acima de tudo um ser humano melhor. Quero ser um excelente treinador, mas o que quero mesmo ser é um grande homem”, conclui.

Compartilhar

Deja una respuesta

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos obligatorios están marcados con *

5 × uno =