Águia de Arrifana voa há 100 anos

De águia ao peito e camisola verde e branca, o CD Arrifanense é o terceiro clube em atividade mais antigo do distrito de Aveiro. A histórica instituição celebrou 100 anos de existência e a Portugal Sport fez questão de marcar presença nesta data tão importante. A disputar a primeira divisão distrital de Aveiro, a época ainda não terminou para os arrifanenses e o mês de maio promete ser decisivo, com disputa da Prova Final da AFA, onde o CD Arrifanense irá tentar o acesso ao campeonato SABSEG.

Se a história de um clube de Lisboa que nasceu numa farmácia e jogava de águia ao peito já é conhecida, não deixa de ser curioso que o CD Arrifanense partilhe a mesma génese, um símbolo idêntico, com um fundador oriundo de Lisboa…e sportinguista de coração. 1921 marca o começo da história desta carismática coletividade de Arrifana, quando Manuel José Pereira fundou o Aliança Futebol Clube, da farmácia com o mesmo nome (que ainda hoje existe) e que mais tarde seria transformado no Sporting Clube Arrifanense, até que em 1931 se fixaria como Clube Desportivo Arrifanense.

Clube bairrista e aguerrido, a década de 1970 seria uma página dourada na história do CD Arrifanense, com a conquista do campeonato distrital de Aveiro em 1975 e a consequente chegada aos campeonatos nacionais de futebol. Nas provas nacionais chegou a disputar a segunda divisão B e foi durante várias décadas o orgulho de uma vila, que situada entre as cidades de São João da Madeira e a antiga Vila da Feira, lutava por reconhecimento em Terras de Santa Maria.

Após um período conturbado, marcado por problemas financeiros e extinção temporária da equipa sénior, o CD Arrifanense celebra o seu centenário completamente renovado e com ambição de regressar a palcos maiores, mas evitando os erros cometidos no passado. Carlos Silva é o presidente do clube e numa entrevista à Portugal Sport, revelou um pouco do que é hoje a realidade desta instituição. “Hoje o CD Arrifanense é um clube estável. Pagamos uma fatura muito alta face às ambições que existiam quando estávamos na segunda divisão B. Na altura o clube deixou uma má imagem, sobretudo perante os adeptos. Terminar os seniores foi um choque para muita gente, mas a verdade é que a direção que tomou essa decisão, deixou o CD Arrifanense sem qualquer divida. Foi um passo atrás, para se dar dois em frente”. Carlos Silva relembra que “quando voltamos a ter equipa sénior, rapidamente subimos de divisão e hoje podemos ambicionar chegar à divisão de Elite da distrital de Aveiro, tudo vai depender dos resultados da Prova Final”.

Carlos Silva, Presidente do Arrifanense

Há 10 anos na estrutura do clube, Carlos Silva passou de diretor do futebol infantil, aos juniores, a vice-presidente e neste momento prepara a recandidatura para um segundo mandato na presidência na instituição. Segundo o próprio, “o nosso trabalho ainda não está concluído. Sobretudo por causa da paragem derivada da pandemia. Felizmente os nossos patrocinadores ajudaram-nos imenso e vamos nos recandidatar a mais dois anos, porque queremos que esta águia voe ainda mais alto”.

Importa salientar que no futebol sénior, a Prova Final da primeira divisão distrital de Aveiro é formada por uma fase de grupos e um playoff. O CD Arrifanense está no Grupo D, juntamente com o Válega e o Florgrade FC. Superando o grupo e o Playoff, conseguirá acesso ao campeonato SABSEG (elite), que faz a ponte entre as distritais e o Campeonato de Portugal. Apesar de não ter o maior orçamento na sua divisão, a direção do CD Arrifanense considera a subida possível e que seria “a cereja em cima do bolo, em ano de centenário”. Também em palavras à nossa publicação, Bruno Inverno, capitão do plantel principal, refere que “em termos pessoais, seria a minha sexta subida de divisão, mas a primeira com a camisola do CD Arrifanense. Tenho 38 anos, vou pendurar as botas e abraçar outro cargo no clube, como tal seria o timing perfeito para subir”.

Bruno Inverno, capitão do Arrifanense

Um ano centenário atípico

A época desportiva não sido propriamente fácil para nenhum clube, muito menos para aqueles que estão disputar os campeonatos não profissionais. Com sucessivas paragens, os campeonatos tiveram poucos jogos disputados e a maior parte do tempo do treino foi de preparação para o regresso da competição. Como também é do conhecimento geral, a formação esteve inativa em termos de competição e quando podiam treinar (antes do novo Estado de Emergência), as limitações eram evidentes em todos os aspetos. Quando assim é, a perda de atletas e de associados é evidente e o centenário foi a forma de garantir uma aproximação entre massa associativa e instituição. Com 350 sócios pagantes o objetivo passa por chegar aos 500 sócios, estando neste momento uma campanha de angariação a decorrer.

Em termos de atletas, com exceção de dois ou três jogadores, o plantel principal manteve-se intacto e na formação a perda teve maiores consequências. Na temporada passada o CD Arrifanense tinha cerca de 200 miúdos na formação e neste momento tem 150, uma consequência das medidas governamentais implantadas. Para o presidente do CD Arrifanense, o regresso de todos os atletas “vai depender das novas medidas, de como funcionará o próximo ano, dos próprios meninos, que estão agora habituados a ficar por casa. E claro, dos pais”. Apesar desta temporada não contemplar qualquer competição oficial, é de prever que no verão se realizem alguns torneios locais, de forma a fomentar a competitividade novamente nas jovens águias verdes e brancas.

Para os adeptos arrifanenses, as comemorações do 100º aniversário também foram afetadas pela COVID-19, no entanto alguns projetos comemorativos irão ganhar vida no final da primavera. Perto do campo de treinos, a 10 de junho, será inaugurado um monumento comemorativo do clube e será também lançado um livro sobre a história do CD Arrifanense. Para essa publicação contribuíram amigos e simpatizantes do clube, com mais de 5000 fotografias históricas e factos comprovados e devidamente documentados sobre a génese da instituição. A edição ficará a cargo do Professor Roberto Carlos.

Um clube para os arrifanenses

Recuando no tempo alguns anos, nomeadamente para as temporadas onde o futebol sénior não existiu em Arrifana, o protagonismo do clube dentro da sua comunidade perdeu efetivamente força. Os adeptos queriam os seniores e após o seu regresso, o objetivo principal passou por fazer até o mais cético dos adeptos, voltar ao estádio Maria Carolina Leite Resende. “A imagem do clube teve de ser limpa. As pessoas tinham de perceber que estávamos a desenvolver um projeto para deixar o clube sem dívidas e assim o fizemos. Procuramos também ter uma direção aberta à população e a relação com os sócios foi muito importante para trazer gente ao estádio e para as pessoas perceberem que estamos cuidar do clube e a prepara-lo para um futuro melhor”, garante o presidente.

Ultimamente o CD Arrifanense investiu numa nova pintura no estádio e nas bancadas, reforçando a ideia de uma nova vida na instituição e limpando a imagem agastada de outrora. No campo de treinos, o tradicional e ultrapassado pelado, foi substituído por um relvado sintético, que há anos vinha a ser requerido por adeptos e atletas do clube. Com a AD Sanjoanense ao lado e com o Feirense a investir num super complexo desportivo, o pelado era há muito o “cancro” que afugentava os atletas de formação do clube, que hoje consegue garantir as melhores condições de jogo e de segurança a qualquer atleta.

Depois de criarem condições mais apelativas ano após ano, está neste momento em construção os novos balneários do campo de treinos, que serve de base para toda a formação do clube. Ainda assim, com um privilegiado relvado natural de primeira Liga no estádio, algumas das equipas de formação fazem alguns treinos no relvado e os juniores já disputam os jogos no Maria Carolina Leite Resende. Sobre a transição entre formação e o plantel principal, Bruno Inverna realça que “dentro da nossa estrutura, é da máxima importância fazer transitar por ano, quatro ou cinco jogadores de juniores. Se vão jogar ou não, dependerá deles. As oportunidades existem, quando eu tinha 17 anos tive a minha chance nos seniores e lutei para conseguir um lugar. Todos os jogadores do CD Arrifanense tem uma chance de chegar aos seniores, se lutarem por isso. Mas também é preciso disciplina e levar as coisas a sério, algo que nem todos os adolescentes fazem”.

Formado no clube, Bruno Inverno é natural de São João da Madeira, mas sente-se arrifanense desde muito cedo. Como atleta da formação do clube, o próprio explica que em “Arrifana os miúdos crescem com a expetativa de jogar no CD Arrifanense e quando os seniores terminaram, houve uma geração que teve de procurar outro clube para poder competir quando chegou à idade adulta. E o próprio clube não tirou proveito dessa geração de jogadores. Hoje existe a hipótese de formarmos atletas para o futebol sénior. E isso é bom para o clube e para os nossos miúdos, que podem realizar um sonho de quem cresceu na nossa vila”.

As alegrias das modalidades

Apesar do futebol ser a principal paixão dos associados do clube e ser a modalidade de fundação da instituição, desengane-se quem pensa que não existe ecletismo no CD Arrifanense. Ao longo de 100 anos a coletividade deu cartas em várias modalidades, sendo que não foi há muito tempo que um atleta de kickboxing do clube venceu um medalha num torneio internacional em França. Se é um facto que algumas modalidades foram desativadas, também é verdade que o futsal vive um momento particularmente interessante.

O CD Arrifanense disputa neste momento a segunda divisão de futsal, com duas recentes participações da Taça de Portugal, sendo inclusivamente campeão da Taça de Aveiro. Com formação incluída, a modalidade do futsal tem sido protagonista em alguns dos mais brilhantes momentos da história recente do Arrifanense. Competindo no pavilhão da escola EB 2/3 de Arrifana, ao lado do estádio, a modalidade reúne uma especial simpatia dentro da freguesia, além de ser um fenómeno de crescimento nos últimos 15 anos em Portugal.

Uma modalidade que surgiu recentemente, foi o bilhar. “A situação do bilhar foi um acontecimento interessante. Fui a certa altura abordado por um conjunto de praticantes de snooker no Café Convívio, que me sugeriram abrir a modalidade. Começamos com duas equipas de seis elementos cada, uma subiu logo no primeiro ano da distrital para a segunda divisão nacional e a outra desapareceu após a pandemia”, afirma Carlos Silva, que garante que a aposta nas modalidades será sempre uma realidade, desde que o clube tenha condições para as introduzir.

Recentemente existiu um projeto para uma equipa de futebol de sub 22 masculinos e de sub 17 femininos, no entanto, não avançaram, mas continuam em cima da mesa.

Uma mensagem de esperança

Com uma época desportiva a terminar e uma nova no horizonte, com demasiadas interrogações face ao desporto nacional, o presidente do CD Arrifanense não terminou a conversa com a Portugal Sport, sem deixar uma mensagem de esperança a todos os arrifanenses. “Ser presidente deste clube é um dos maiores orgulhos da minha vida e foi o melhor presente que me podiam ter dado, depois de 10 anos como dirigente do CD Arrifanense. Nestes anos conseguimos evoluir o clube em todos os setores. Melhoramos as infraestruturas, subimos de divisão e independente de como terminar esta temporada, temos muitos projetos em andamento, que vão tornar o nosso clube maior. Esta direção é candidata a mais dois anos, porque não somos de deixar as coisas a meio. Acreditem neste clube e venham-nos ajudar. Todos juntos poderemos melhorar o CD Arrifanense e fazê-lo ter maior visibilidade”.

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